domingo, 14 de março de 2010

A solidão
















"Minha força está na solidão. Não tenho medo
nem de chuvas tempestivas nem de grandes
ventanias soltas, pois eu também sou o escuro
da noite." Clarice Lispector.
Lendo essas palavras, o mais impressionante, porém, não é
a idéia de que minha força possa estar na solidão, e sim que
eu tenha me acostumado a procurar minha força em toda
parte, exceto na solidão.
Saia de casa. Vá à festa. Ao bar. Ver gente, dizem. Não sendo
possível, existem entorpecentes ao alcance da mão: a televisão
solidária, o correio eletrônico em que smiley faces de óculos
escuros pesam o mesmo que um parágrafo inteiro, 140 toques
para contar como chove ou como vai a dor de cabeça. Um
novo toque no novo celular com uma nova mensagem de
texto. Amizades light nos sites de relacionamento.
E a solidão, aquele monstro fica ali no canto de
olhos meio vidrados, se esquecendo de rosnar, a baba
imobilizada no canto da boca.
Mas e se minha força estiver na solidão e eu estiver, por
pura tolice, confundindo heróis e vilões?
Afinal, eu também sou o escuro da noite. Eu também
sou o que sobra em casa depois que todo mundo saiu e o
que sobra da cidade depois que todo mundo foi dormir.
Eu também sou isso, o silêncio que existe de dentro para
fora, como algo que se alastra, que transforma até o ruído
externo numa coisa sem sentido. Eu também sou apenas,
eu só. E mais nada nem ninguém, mesmo na esquina mais
movimentada da maior cidade do mundo. Também sou o
último passageiro do ônibus e a voz que ninguém ouviu;
É preciso grande humildade para coabitar comigo, para
não ter medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes
ventanias soltas, e não camuflá-las com auto-ajuda. Mas só
tenho como ser o claro do dia sendo, também, o escuro
da noite. Do contrário a minha vida é rasa e os meus
sentimentos, pequenas pérolas falsas. Dito de outro modo:
só tenho como acompanhar e me fazer acompanhar se
descriminalizar em mim a solidão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário